Paulo Brack*
O dia 24 de outubro, Dia Mundial do Desenvolvimento, passou despercebido.
Em 1992, sediamos a Rio 92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Evento marcante, que resgatou a preocupação já manifestada em 1972, em Estocolmo, com os rumos do desenvolvimento diante do esgotamento crescente dos recursos naturais e da perda continuada da qualidade ambiental. O Brasil, campeão da Megadiversidade biológica e dos contrastes sociais, foi o centro das atenções mundiais.
Passados 16 anos, apesar dos alertas de extrema gravidade por que passa nosso Planeta, principalmente depois da divulgação dos dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas), que davam conta de que o clima mudou em decorrência das atividades econômicas do homem moderno, estamos alheios e atuando como a avestruz, com o perdão da “zoombaria”. Por coincidência, no início de 2007, quando as projeções alertavam para o fato de que em algumas décadas viveríamos no meio de desertos, onde hoje temos Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, sendo que a Caatinga iria virar pó, noticiava-se que o “Risco Brasil” diminuía. Ou melhor, era pra comemorarmos (!) que o risco-país, dos investidores, tinha baixado a níveis inéditos e que o Brasil poderia deslanchar em sua economia, apesar dos trágicos prognósticos. Foi na mesma época do lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento. Como conseqüência, tivemos o frenesi do “Pra Frente Brasil II”. Com a diferença de que a ditadura agora era outra: a do Deus-Mercado, com seus sacerdotes governamentais e os economistas da velha cartilha, acostumados a desconsiderar a real capacidade de suporte da natureza diante de tanto investimento pesado em convencionais atividades degradantes do meio.
Assim, temos o crescimento reloaded: 1) Revolução Verde II, temperada com OGMs; 2) Mega-hidrelétricas, com desalojo de mais de cem mil ribeirinhos, até 2016; 3) Angra III, IV, V…, com concentração de geração de energia, sem destino certo e possível para resíduos radioativos; 4) “Commodities, vamos lá!”, com exportação de produtos com baixo valor agregado, ligados a imensas monoculturas químico-dependentes, com soja, homogeneizando a paisagem, do Pampa à Amazônia; 5) Consumo, consumo, consumo, ligado à tradicional obsolescência planejada. Paramos por aqui. Para não saturar o leitor, sugerimos, para quem não viu, o vídeo “A História das Coisas”.
Este “autismo-ecológico” brasileiro e mundial também faz lembrar - apesar de mais uma injusta “zoombaria” - a imagem dos três macaquinhos, aqueles. Fazemos de conta que não vimos mais nada, não escutamos mais nada e, por conseguinte, não falamos mais nada que incomode nosso imediatismo. E este tema não é novo. Em 1976, José Lutzenberger já alertava para a inconsistência do PNB (Produto Nacional Bruto), em seu livro “Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro”. O Fórum Social Mundial começou a rediscutir isso tudo, de forma coletiva e mundial, mas ainda não discutiu em mudar o lema de “Um Outro Mundo é Possível” para “Um Outro Mundo é a Salvação!”.
A tarefa do despertar de consciências é árdua. Existe uma cultura hegemônica, ainda muito alienada dos princípios ecológicos. Por sinal, a palavra “sustentabilidade”, até no editor de texto Word aparece com aquele tracejado vermelho embaixo, não sendo reconhecida. No que se refere aos governantes, em sua quase totalidade, de dentro e de fora do País, parece que não existe outra via que não aquela, a reboque do crescimento econômico, da pesada infra-estrutura, alienada da sustentabilidade. A uniformidade produtivista e massificante acaba se tornando lei. Ou melhor, “toda diversidade atrapalha e será castigada”. Exemplo: uma paisagem de um campo de soja, a perder de vista no horizonte, com enormes e pesadas máquinas colheitadeiras. Não é permitido um matinho no meio. Alguns ficam emocionados em ver essa uniformidade tamanha. Se este é o paradigma do País Megadiverso, estamos fritos…
Só para esclarecer: o Brasil tem mais de duas mil espécies de frutas nativas e número equivalente de hortaliças, nozes, castanhas, peixes, etc., sem espaço para o investimento governamental e empresarial. Nossas fontes de energia, mais sustentáveis, como a solar e a eólica, também são esquecidas nas políticas de desenvolvimento. Nossa paisagem, ainda exuberante, tem um enorme potencial para o turismo. Nos EUA, isso gera 80 bilhões de dólares por ano.
Esta nebulosa visão do que seria melhor, mais sustentável e mais justo, infelizmente, não ganha espaço para o debate franco e inteligente. Inclusive a miopia econômica é insuflada por aqueles que se aproveitam do imediatismo mais raso, desses acostumados em acumular capital e poder, ou vice-versa.
Chegam ao cúmulo de limitar questões como a imensa alteração de uma mega-hidrelétrica na Amazônia a um pobre bagrinho. É muita “zoombaria”! Sugerimos, no caso relacionado a esta postura do ser humano, uma mescla de sapiência e de demência, o vídeo-palestra de Leonardo Boff.
No Brasil, desde alguns meses, deixou-se de falar um pouco no PAC e nos agrocombustíveis, voltando-se para o petróleo da camada Pré-Sal, e na necessidade de investimentos na Copa do Mundo, de 2014. Quando se trata de bola de futebol, somos expertises e quase toda a mídia não para de falar no assunto. Agora, vem à mente o papagaio…
Mas, por sorte, nem tudo é a euforia do crescimento. O contumaz divórcio entre desenvolvimento e meio ambiente parece que sofreu uma baixa importante. A recente crise das bolsas, causada pelo rombo de bancos norte-americanos, vai frear um pouco este modelo perverso de crescimento e globalização. O Setembro de 2008 vai ficar para a história. Os investimentos voláteis e o ciclo vicioso da produção e do consumo ilimitados não vão passar incólumes. Surge uma chance ímpar para o questionamento dos reais resultados desse modelo de “desenvolvimento” adotado no mundo e que arrasta a sociedade e a Natureza para o inevitável ralo da insustentabilidade.
Zôo-preconceitos a parte, vamos pensar agora na coruja: animal que simboliza a sabedoria. Espelhemo-nos nesta ave que tem olhar amplo, de quase 360º. Se o desenvolvimento baseado em grandes empreendimentos e investimentos em commodities coloca o Brasil entre as dez maiores economias do mundo, apesar de também um dos dez em desigualdades sociais e problemas ambientais, não nos resta outra alternativa que buscarmos um rumo mais sadio e sustentável. Entretanto, este rumo novo não deve ser só do País.
Mas o que fazer para mudar? Primeiro, pensar em outro projeto de sociedade, mais solidário, que não este hegemônico que preza o capital e desconsidera o ser humano e a vida. A justiça social e o equilíbrio ambiental são interdependentes. Realizemos um questionamento profundo deste sistema econômico, a fim de que em algum momento possamos superar a insalubridade inerente do neoliberalismo e do capitalismo. É fundamental a criação de mecanismos mundiais de limite ao capital e à propriedade. Quase ninguém discute a lógica do acúmulo ilimitado. Com a globalização, as empresas vão sempre buscar a hipertrofia como único caminho para a sua sobrevivência. Isso, coletivamente, é suicida, pois a Natureza tem limites. Neste caso, sugerimos o vídeo de uma brilhante palestra do jornalista Washington Novaes.
Vamos traçar, urgentemente, e de forma permanente, metas socioambientais. Entre estas, a reforma agrária e as condições para o convívio do homem do campo com a agrobiodiversidade. Sem isso, não há solução para a humanidade. As cidades não agüentam tanta gente desempregada e tanto campo vazio, mecanizado e quimificado. Vivemos a guerra cotidiana das grandes cidades, pela teimosia inviável de fazer crescê-las, indefinidamente.
Outra questão: o progresso científico e o desenvolvimento econômico devem estar a serviço da coletividade. Ciência cidadã, onde as tão faladas tecnologias de inovação não sejam uma forma de requentar a tecnologia da uniformidade produtivista, da automação que desemprega e concentra ainda mais capital, agravando a apropriação dos bens por uns poucos.
Necessitamos reafirmar nossa auto-estima ecológica e comunitária, discutindo projetos de desenvolvimento, verdadeiramente sustentáveis, descentralizados e participativos, respeitando-se a legislação ambiental, em todos os níveis. Necessitamos fortalecer os mecanismos de controle do Estado por parte da sociedade, para fazer frente ao avanço da desregulamentação das leis ambientais e sociais promovido, de forma crescente, pelo setor privado.
Busquemos caminhos endógenos de desenvolvimento que incluam e promovam a nossa rica biodiversidade, visando a justa emancipação socioambiental brasileira. Como? Reflexão-ação em todas as iniciativas. Pesquisa e desenvolvimento de modelos descentralizados e participativos, sem apropriação privada do conhecimento coletivo. A agroecologia e o fortalecimento do homem do campo, principalmente o pequeno, são temas estratégicos para o desenvolvimento. Energias descentralizadas, solar e eólica. Menor consumo, por favor! Respeito à vocação ecológica de cada local. Nenhum apoio de bancos públicos e privados às monoculturas, principalmente as de grande escala. Substituição paulatina de todas as monoculturas por policulturas. As frutas nativas, a flora como um todo e nossa fauna agradecerão. Abandono das mega-obras, de todos os tipos, pois dão margem a desvios econômicos e grandes impactos socioambientais, por pequenas obras, descentralizadas e demandadas pelos pequenos.
Necessitamos de Desenvolvimento Participativo, pela Sustentabilidade da Vida no Planeta!
Um outro mundo é mais que possível. É necessário. É a salvação! Comecemos cada um de nós, individualmente, e juntemos nossas forças e ações, coletivamente!
* É professor da UFRGS e membro do Ingá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais.
fonte: www.inga.org.br
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